domingo, 9 de setembro de 2012
Há muito que são velhas vestidas de preto até à alma
Há muito que são velhas vestidas
de preto até à alma.
Contra o muro
defendem-se do sol de pedra;
ao lume
furtam-se ao frio do mundo.
Ainda têm nome? Ninguém
pergunta, ninguém responde.
A língua, pedra também.
Eugénio de Andrade
Foto de Carlos Lopes Franco- Galeria Olhares
terça-feira, 14 de agosto de 2012
Alentejo
Alentejo
A luz que te ilumina,
terra da cor dos olhos de quem olha!
A paz que se adivinha
na tua solidão
que nenhuma mesquinha condição
pode compreender e povoar!
O mistério da tua imensidão
onde o tempo caminha
sem chegar !...
Miguel Torga
Diário XII, 20 de Outubro de 1974
domingo, 29 de julho de 2012
O meu olhar é nítido como um girassol
O meu olhar é nítido como um girassol
tenho o costume de andar pelas estradas
olhando para direita e para a esquerda,
e de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
é aquilo que nunca antes eu tinha visto,
e eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
que tem uma criança, se ao nascer,
reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
para a eterna novidade do Mundo…
Alberto Caeiro
domingo, 8 de julho de 2012
A minha alma é uma orquestra oculta
A minha alma é uma orquestra oculta;
não sei que instrumentos tangem e rangem,
cordas e harpas, timbales e tambores, dentro de mim.
Só me conheço como sinfonia.
Fernando Pessoa
Livro do Desassossego
segunda-feira, 18 de junho de 2012
Voz Activa
imagem: criação de Jonathan Callan
Canta, poeta, canta!
Violenta o silêncio conformado.
Cega com outra luz a luz do dia.
Desassossega o mundo sossegado.
Ensina a cada alma a sua rebeldia.
Miguel Torga
in "Diário XIII", 1983
quinta-feira, 14 de junho de 2012
Sol nulo dos dias vãos
Sol nulo dos dias vãos,
cheios de lida e de calma,
aquece ao menos as mãos
a quem não entras na alma!
Que ao menos a mão, roçando
A mão que por ela passe
com externo calor brando
o frio da alma disfarce!
Senhor, já que a dor é nossa
e a fraqueza que ela tem,
dá-nos ao menos a força
de a não mostrar a ninguém!
Fernando Pessoa
quarta-feira, 13 de junho de 2012
Hoje deitei-me ao lado da minha solidão
Hoje deitei-me ao lado da minha solidão.
O seu corpo perfeito, linha a linha
derramava-se no meu, e eu sentia
nele o pulsar do meu próprio coração.
Moreno, era a forma das pedras e das luas.
Dentro de mim alguma coisa ardia:
o mistério das palavras maduras
ou a brancura de um amor que nos prendia.
Hoje deitei-me ao lado da minha solidão
e longamente bebi os horizontes.
E longamente fiquei até ouvir
o meu sangue jorrar na voz das fontes.
Eugénio de Andrade
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