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sexta-feira, 19 de novembro de 2021

O Amor é o Caminho que nos Leva à Esperança


 

                                                        Foto: Google


O amor é o caminho que nos leva à esperança. E esta não é uma espécie de consolação, enquanto se esperam dias melhores. Nem é sobretudo expectativa do que virá. Esperar não significa projetar-se num futuro hipotético, mas saber colher o invisível no visível, o inaudível no audível, e por aí fora. Descobrir uma dimensão outra dentro e além desta realidade concreta que nos é dada como presente. Todos os nossos sentidos são implicados para acolher, com espanto e sobressalto, a promessa que vem, não apenas num tempo indefinido futuro, mas já hoje, a cada momento. A esperança mantém-nos vivos. Não nos permite viver macerados pelo desânimo, absorvidos pela desilusão, derrubados pelas forças da morte. Compreender que a esperança floresce no instante é experimentar o perfume do eterno.

José Tolentino Mendonça, in 'A Mística do Instante'


segunda-feira, 1 de novembro de 2021

As nossas estradas já tiveram a timidez dos rios e a suavidade das mulheres


                                               Foto: Google

As nossas estradas já tiveram a timidez dos rios e a suavidade das mulheres. E pediam licença antes de nascer. Agora, as estradas tomam posse da paisagem e estendem as suas grandes pernas sobre o Tempo, como fazem os donos do mundo.


Mulheres de Cinza - Mia Couto


quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Os livros

 

                                                     Foto:Google



NUM EXEMPLAR DAS GEÓRGICAS


Os livros. A sua cálida,

terna, serena pele. Amorosa

companhia. Dispostos sempre

a partilhar o sol

das suas águas. Tão dóceis,

tão calados, tão leais.

Tão luminosos na sua

branca e vegetal e cerrada

melancolia. Amados

como nenhuns outros companheiros

da alma. Tão musicais

no fluvial e transbordante

ardor de cada dia.

 Eugénio de Andrade


quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Atravessar a Própria Solidão

                                               Foto: google


 

                                             

Atravessar a Própria Solidão

A cultura contemporânea deixou de preparar-nos para a solidão. Na maior parte das vezes, essa é uma aprendizagem que temos de fazer em cima dos próprios acontecimentos ou na sua dolorosa ressaca, e de forma muito desacompanhada. É como se a solidão fosse uma eventualidade improvável na experiência humana e não, como é, um ponto de passagem obrigatório e comum.
Lembro-me de uma frase de Truman Capote que transcrevi há anos para um caderno: «Todos estamos sozinhos, debaixo dos céus, com aquilo que amamos.» Em momentos diferentes da vida, tenho regressado a ela, e sinto que ainda não me revelou a extensão integral da sua verdade.
Esquecemos que todos os dias, mesmo numa vida afetivamente integrada e febrilmente ativa, a solidão nos visita. Estamos sós quando estamos connosco próprios e em companhia. Estivemos sós em crianças, na transbordante juventude e nas décadas da vida adulta, e estaremos assim na nossa velhice. A amizade e o amor são formas de partilhar, diminuir, dar serenidade ou potenciar criativamente a solidão, mas o seu assobio ininterrupto continuará a fazer-se ouvir na ronda magnífica dos amigos ou no abraço redondo dos amantes. Ela perfura tudo. Recordá-lo é humanizar o nosso olhar sobre a realidade.
Também por esse motivo, gostei muito de encontrar as palavras lúcidas da escritora brasileira Nélida Pinon: «A solidão buscada é o lugar onde melhor aprendi a encontrar-me.»

José Tolentino Mendonça, in 'O Pequeno Caminho das Grandes Perguntas'

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Encheram a terra de fronteiras


                                               Foto: Google

Encheram a terra de fronteiras, carregaram o céu de bandeiras, mas só há duas nações – a dos vivos e dos mortos.


Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra – Mia Couto


quarta-feira, 18 de agosto de 2021

A Gente pouco Sabe e pouco Pode


                                                          Foto: google

A gente pouco sabe e pouco pode. Conhece apenas duas regras de higiene (que o corpo se recusa a observar), três de moral (que o instinto se recusa a praticar), e uma ou duas de civilidade (que só a polícia muito limitadamente nos faz cumprir), e pode apenas o que pode um bicho solicitado por um tropismo fundamental. Mas que maravilhoso ser seria aquele que pudesse entender a beleza perfeita duma flor, e fosse capaz de se pôr em espírito numa brancura assim, gratuita e perfumada!

Miguel Torga, in "Diário (1941)"


quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Viver o Dia-a-Dia


                                                          Foto: Google

Viver o Dia-a-Dia

Sou forçado a considerar que o pior mal dos nossos dias, aquele que não permite que nada chegue a amadurecer, reside no facto de os homens deixarem que cada momento se consuma completamente no momento seguinte, que o dia se esgote em si mesmo, ou seja, em viverem exclusivamente o dia-a-dia sem qualquer perspetiva de futuro. Até já temos jornais destinados a diferentes partes do dia!
E não custa acreditar que haja alguém com esperteza suficiente para inventar mais alguns pelo meio. Mas deste modo tudo o que se faz, tudo o que se empreende, se imagina ou se projeta vai sendo arrastado para o domínio público; ninguém pode viver as suas alegrias ou as suas tristezas sem que isso se torne passatempo dos outros.

Johann Wolfgang von Goethe, in 'Máximas e Reflexões'