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sexta-feira, 3 de março de 2023

No silêncio dos olhos

 

                                                     Foto: Google

    


                                         

                        No silêncio dos olhos
                        Em que língua se diz, em que nação,
                        Em que outra humanidade se aprendeu
                        A palavra que ordene a confusão
                       Que neste remoinho se teceu?
                      Que murmúrio de vento, que dourados
                      Cantos de ave pousada em altos ramos
                      Dirão, em som, as coisas que, calados,
                      No silêncio dos olhos confessamos?


– José Saramago, em “Os poemas possíveis”. 3ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 1981.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

A minha escrita foi ganhando rugas com idade


                                               Foto: Google


A minha escrita foi ganhando rugas com  idade

Ao longo da noite vou lendo as minhas velhas cartas. Vejo como a minha letra mudou e penso: a caligrafia é parte do corpo, a minha escrita foi ganhando rugas com a idade."

 

Reflexão do personagem Adriano Santiago

No livro O Mapeador de Ausências, de Mia Couto


sábado, 28 de janeiro de 2023

Ausência


                                               Foto: Google


Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

 Tudo aquilo que perdemos e do qual sentimos saudade está eternizado em nós e, por isso, permanece connosco.

Carlos Drumond de Andrade


segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

Ver Claro


                                              Foto: google


Ver Claro

Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.

Eugénio de Andrade


domingo, 15 de janeiro de 2023

A minha vida é uma corda de viola esticada entre dois mundos

                                                                                     
Foto: Google



A minha vida é uma corda de viola esticada entre dois mundos.

No outro, oiço-lhe a música;
neste, sinto-lhe as vibrações.

Miguel Torga


 

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

O Egoísmo Pessoal Tapa Todos os Horizontes

    

                                            Foto: google


O Egoísmo Pessoal Tapa Todos os Horizontes

O mal e o remédio estão em nós. A mesma espécie humana que agora nos indigna, indignou-se antes e indignar-se-á amanhã. Agora vivemos um tempo em que o egoísmo pessoal tapa todos os horizontes. Perdeu-se o sentido da solidariedade, o sentido cívico, que não deve confundir-se nunca com a caridade. É um tempo escuro, mas chegará, certamente, outra geração mais autêntica. Talvez o homem não tenha remédio, não tenhamos progredido muito em bondade em milhares e milhares de anos sobre a Terra. Talvez estejamos a percorrer um longo e interminável caminho que nos leva ao ser humano. Talvez, não sei onde nem quando, cheguemos a ser aquilo que temos de ser. Quando metade do mundo morre de fome e a outra metade não faz nada...alguma coisa não funciona. Talvez um dia!

José Saramago, in 'La Verdade (1994)'


sábado, 24 de dezembro de 2022

Para haver Natal este Natal

 

                                                    Foto: Google


Para haver Natal este Natal

Talvez seja preciso reaprendermos
Coisas tão simples!

Que as mãos preocupadas com embrulhos
Esquecem outros gestos de amor,
Que os votos rotineiros que trocamos
Calam conversas que nos fariam melhor,
Que os símbolos apenas se amontoam
E soltam uma música triste
Quando já não dizem aquela verdade profunda!

Para haver Natal este Natal
Talvez seja preciso recordar
Que as vidas começam e recomeçam
E tudo isso é nascimento (logo, Natal)
Que as esperanças ganham sentido
Quando se tornam caminhos e passos.
Que para lá das janelas cerradas
Há estrelas que luzem
E há a imensidão do Céu.

Talvez nos bastem coisas
Afinal tão simples:

(1) O alento dos reencontros autênticos;
(2) A oração como confiança soletrada;
(3) A certeza de que Jesus nasce em cada ano
Para que o nosso natal, alguma vez, esta vez, seja Natal!

José Tolentino Mendonça