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segunda-feira, 6 de novembro de 2023

Há perguntas que nos fazem medo



                                              Foto: Google


Há perguntas que nos fazem medo, e talvez não devessem. Há interrogações que não nos pedem unicamente informações, mais sérias ou mais banais que sejam, que estamos educadamente dispostos a fornecer, mas aquela verdade concreta de nós que nos custa reconhecer.

Há indagações que não são apenas técnicas, dirigidas às nossas competências e aos nossos argumentos defensivos. Há questões dirigidas a um território interior feito de silêncios, adiamentos, fadigas, sonhos que se extinguiram sem deixar espaço a outros sonhos.

Vem à minha memória um pequeno fato que me foi contado por um amigo. Um destes dias, quando trazia da escola para casa a filha, ela, com os seus quatro anos, perguntou-lhe: «Papá, os grandes são felizes?».

Ele tomou a menina nos braços, e só conseguiu abraça-la com força, durante muito tempo. «Se respondo, desabo em lágrimas», dizia para si.

Ajuda-nos, Senhor, a colher a importância das perguntas que nos desestabilizam, em vez de nos tornarmos, com idade adulta, profissionais da fuga.

Cardeal D. José Tolentino Mendonça

quinta-feira, 26 de outubro de 2023

A minha sombra sou eu


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A minha sombra sou eu,

ela não me segue,

eu estou na minha sombra

e não vou em mim.

Sombra de mim que recebo a luz,

sombra atrelada ao que eu nasci,

distância imutável de minha sombra a mim,

toco-me e não me atinjo,

só sei do que seria

se de minha sombra chegasse a mim.

Passa-se tudo em seguir-me

e finjo que sou eu que sigo,

finjo que sou eu que vou

e não que me persigo.

Faço por confundir a minha sombra comigo:

estou sempre às portas da vida,

sempre lá, sempre às portas de mim!

 

José de Almada Negreiros


sábado, 14 de outubro de 2023

O ESPÍRITO DO OUTONO

                                                           Foto: google



 

O ESPÍRITO DO OUTONO

 

Terei de falar do espírito do outono

agora que setembro

chegou ao fim. (Espírito

é palavra suspeita: não há

hipócrita que não se abrigue

à sua sombra.) Será

a embriaguez? O vento matinal

arrastando folhas

raparigas canções?

O sopro frio das estrelas?

Será a beleza,

o espírito do outono? Há um limite

para o homem, um limite

para suportar o peso do mundo.

Da beleza, da bárbara

orgulhosa beleza, quem sabe defender-se

sem medo do coração lhe rebentar?

 

Eugénio de Andrade -  "O Sal da Língua"

domingo, 8 de outubro de 2023

A Festa do Silêncio


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A Festa do Silêncio

Escuto na palavra a festa do silêncio.

Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.

As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.

Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.

É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.


Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,

o ar prolonga. A brancura é o caminho.

Surpresa e não surpresa: a simples respiração.

Relações, variações, nada mais. Nada se cria.

Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.


Nada é inacessível no silêncio ou no poema.

É aqui a abóbada transparente, o vento principia.

No centro do dia há uma fonte de água clara.

Se digo árvore a árvore em mim respira.

Vivo na delícia nua da inocência aberta.


António Ramos Rosa, in "Volante Verde"


domingo, 24 de setembro de 2023

Estamos a Construir uma Sociedade de Egoístas



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Estamos a Construir uma Sociedade de Egoístas

Estamos a construir uma sociedade de egoístas. Se a ti te dizem que o que importa é o que compras, e segundo o que compras têm mais ou menos consideração por ti, então convertes-te num ser que não pensa senão em satisfazer os seus gostos, os seus desejos e nada mais. Não existe em nenhuma faculdade uma disciplina do egoísmo, mas não é preciso, é a própria experiência social que nos vai fazendo assim. Ao longo da História as igrejas e as catedrais eram os lugares onde se procurava um valor espiritual determinado. Agora os valores adquirem-se nos centros comerciais. São as catedrais do nosso tempo.

José Saramago, in 'El Mundo (2000)'


sábado, 16 de setembro de 2023

Devia morrer-se de outra maneira

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Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pólen...
como aquela nuvem além (veem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...
 

José Gomes Ferreira

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

Memória dos sentidos




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Memória dos sentidos

Olho para além dos sinais visíveis do horizonte.

Há um caos na trama dos dias apressados.

 

O pão há muito não tem o sabor da seara.

No verão o aroma dos figos e da urze

já não transpõe a ombreira da porta.

Nos muros caiados a violência do sol

atinge o olhar incauto dos que amam as sombras.

As vozes caladas das mulheres são um áspero bulício

contra as casas com frinchas nas janelas.

Nas mãos de toda a gente lateja um ritmo veloz

um impulso extraviado um gesto evasivo.

 

Instantes que perturbam a incerta imensidade do tempo.

 

Graça Pires – O improviso de viver