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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Um poema















Não tenhas medo, ouve:
É um poema
um misto de oração e de feitiço...
sem qualquer compromisso,
ouve-o atentamente,
de coração lavado.
Poderás decorá-lo
e rezá-lo
ao deitar
ao levantar,
ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza
de que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz...

Miguel Torga, Diário XIII
Foto de Jacob Lopes 1000imagens

sábado, 31 de dezembro de 2011

domingo, 21 de agosto de 2011

Um novo olhar



A verdadeira viagem de descoberta não consiste na busca de novas paisagens, mas de um novo olhar".

(Marcel Proust)

quarta-feira, 15 de junho de 2011

A mão invisível do vento roça por cima das ervas














A mão invisível do vento roça por cima das ervas.
Quando se solta, saltam nos intervalos do verde
papoulas rubras, amarelos malmequeres juntos,
E outras pequenas flores azuis que se não veêm logo,

Não tenho quem ame, ou vida que queira, ou morte que roube.
Por mim, como pelas ervas, um vento que só as dobra
Para as deixar voltar àquilo que foram, passa.
Também para mim um desejo inutilmente bafeja
As hastes das intenções, as flores do que imagino,
E tudo em volta ao que era sem nada lhe acontecesse.

Alberto Caeiro
(in “poesia”)

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Procuro-te


















Procuro-te
Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te.

Eugénio de Andrade, in "As Palavras Interditas"
(foto de J. Morais)

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

poema à vida


Cada bebé traz consigo uma nova bênção ao mundo.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Quando está frio no tempo do frio
















Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das cousas
O natural é o agradável só por ser natural.

Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno —
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no fato de aceitar —
No fato sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.

Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do Verão
E o frio da terra no cimo do Inverno.

Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só corri a inteligência,
Nunca ao defeito de exigir do Mundo
Que fosse qualquer cousa que não fosse o Mundo.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterónimo de Fernando Pessoa