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domingo, 3 de maio de 2015

As ruínas imagens de um mundo que partiu


(Foto: Google)

As ruínas, imagens de um mundo que partiu. Aquilo que nos incomoda nesses sítios é também a presença da morte. Penetramos, no universo do vazio. No reino da ausência.
E no entanto essa ausência é presença. A vida espalha-se por todas as fendas, a vida resplandece nos escombros que as ervas vão invadindo.
Um segredo importante esconde-se no meio das ruínas: o da instabilidade do mundo e a sua incessante mutação.
O que interessa dos lugares, é o facto de o seu espírito se reflectir em nós.
(Elogio do silêncio – Marc de Smedt)

sexta-feira, 13 de março de 2015

Qualquer caminho leva a toda a parte


Foto: Google

Qualquer caminho leva a toda a parte.

Qualquer ponto é o centro do infinito.

E por isso, qualquer que seja a arte

de ir ou ficar, do nosso corpo ou espírito,

tudo é estático e morto. Só a ilusão

tem passado e futuro, e nela erramos.

Não há estrada senão na sensação

é só através de nós que caminhamos.

Tenhamos pra nós mesmos a verdade

de aceitar a ilusão como real

sem dar crédito à sua realidade.

E, eternos viajantes, sem ideal

salvo nunca parar, dentro de nós,

consigamos a viagem sempre nada

outros eternamente, e sempre sós;

Nossa própria viagem é viajante e estrada.

Que importa que a verdade da nossa alma

seja ainda mentira, e nada seja

a sensação, e essa certeza calma

de nada haver, em nós ou fora, seja

inutilmente a nossa consciência?

Faça-se a absurda viagem sem razão.

Porque a única verdade é a consciência

e a consciência é ainda uma ilusão.

E se há nisto um segredo e uma verdade

os deuses ou destinos que a demonstrem

do outro lado da realidade,

ou nunca a mostrem, se nada há que mostrem.

O caminho é de âmbito maior.

Que a aparência visível do que está fora,

excede de todos nós o exterior

não para como as coisas, nem tem hora.

Ciência? Consciência? Pó que a estrada deixa

e é a própria estrada, sem a estrada ser.

É absurda a oração, absurda a queixa.

resignar(-se) é tão falso como ter.

Coexistir? Com quem, se estamos sós?

Quem sabe? Sabe [...] que são?

Quantos cabemos dentro em nós?

Ir é ser. Não parar é ter razão.


11-10-1919
Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990.
- 95.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Enrolar o mundo à volta dos nossos dedos


Imagem:Google

Enrolar o mundo à volta dos nossos dedos, como um fio ou uma fita com que brinque uma mulher que sonha à janela.

Resume-se tudo enfim em procurar sentir o tédio de modo que ele não doa.


Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.I. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Não entendo



(Foto: Google)

Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender.
Entender é sempre limitado.
Mas não entender pode não ter fronteiras.
Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.
Não entender, do modo como falo, é um dom.
Não entender, mas não como um simples de espírito.
O bom é ser inteligente e não entender.
É uma bênção estranha, como ter loucura sem ser doida.
É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice.
Só que de vez em quando vem a inquietação:
quero entender um pouco.
Não demais:
mas pelo menos entender que não entendo.
Clarice Lispector

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

O Natal não é ornamento: é fermento



Foto: Google

"O Natal não é ornamento: é fermento
É um impulso divino que irrompe pelo interior da história
Uma expectativa de semente lançada
Um alvoroço que nos acorda
para a dicção surpreendente que Deus faz
da nossa humanidade

O Natal não é ornamento: é fermento
Dentro de nós recria, amplia, expande

O Natal não se confunde com o tráfico sonolento dos símbolos
nem se deixa aprisionar ao consumismo sonoro de ocasião
A simplicidade que nos propõe
não é o simplismo ágil das frases-feitas
Os gestos que melhor o desenham
não são os da coreografia previsível das convenções

O Natal não é ornamento: é movimento
Teremos sempre de caminhar para o encontrar!
Entre a noite e o dia
Entre a tarefa e o dom
Entre o nosso conhecimento e o nosso desejo
Entre a palavra e o silêncio que buscamos
Uma estrela nos guiará
O Natal não é ornamento"

José Tolentino de Mendonça

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Entre mim e a vida há um vidro ténue


Foto: Google


"Entre mim e a vida há um vidro ténue. Por mais nitidamente que eu veja e compreenda a vida, eu não lhe posso tocar."


Fernando Pessoa - Livro do Desassossego

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

A roupa estendida ao vento parece gente a viver


Foto: Google
A roupa estendida ao vento
parece gente a viver
move-se em gestos sem tento
perante o meu pensamento
que não sabe senão ver.

Mas o que fazem no mundo
os homens nos gestos seus
nada é mais firme ou profundo
que este ar nas roupas ao fundo
dos grandes quintais de Deus.

E eu no meu solene estúdio
de como as cousas não são,
no qual compreendo tudo,
vejo o branco agitar mudo
da roupa sem coração.

E lembro, por diferença,
a semelhança que há
entre a agitação intensa
da roupa livre e suspensa
e aquela em que o homem está.

Ao sol e ao vento da vida
livre e preso sob os céus
oscila, coisa movida,
mas é só roupa estendida
nos grandes quintais de Deus.

7 - 12 - 1937

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006