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sábado, 13 de maio de 2017

O mundo é de quem não sente

                                                       

                                                       
                                                          Foto:google

«O mundo é de quem não sente. A condição essencial para se ser um homem prático é a ausência de sensibilidade. A qualidade principal na prática da vida é aquela qualidade que conduz à acção, isto é, a vontade. Ora há duas coisas que estorvam a acção — a sensibilidade e o pensamento analítico, que não é, afinal, mais que o pensamento com sensibilidade. Toda a acção é, por sua natureza, a projecção da personalidade sobre o mundo externo, e como o mundo externo é em grande e principal parte composto por entes humanos, segue que essa projecção da personalidade é essencialmente o atravessarmo-nos no caminho alheio, o estorvar, ferir e esmagar os outros, conforme o nosso modo de agir.»


in Livro do Desassossego (fragmento 303)- Fernando Pessoa

sábado, 28 de janeiro de 2017

Lisboa

                                           Foto: Google

Lisboa

Alguém diz com lentidão:
"Lisboa, sabes..."
Eu sei. É uma rapariga
descalça e leve,
...um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus
e degraus
e degraus até ao rio.
Eu sei. E tu, sabias?

(Eugénio de Andrade
)

domingo, 18 de dezembro de 2016

Natal


Foto:Google


NATAL

Um anjo imaginado,
um anjo dialéctico, actual,
ergueu a mão e disse: - É noite de Natal,
paz à imaginação!

E todo o ritual
que antecede o milagre habitual
perdeu a exaltação.

Em vez de excelsos hinos de confiança
no mistério divino,
e de mirra, e de incenso e oiro
derramados
no presépio vazio,
duas perguntas brancas, regeladas
como a neve que cai,
e breves como o vento
que entra por uma fresta, quezilento,
redemoinha e sai:

À volta da lareira
quantas almas se aquecem
fraternamente?

Quantas desejam que o Menino venha
ouvir humanamente
o lancinante crepitar da lenha?


Miguel Torga – Natal 1962

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Uma história triste agrada sempre

                                           Foto: Google



Uma história triste agrada sempre. No seu sentido mais profundo, a vida é bela e alegre. Todos nós tivemos já a experiência disso milhares de vezes.
Provas sobre provas de que não há primavera sem flores, nem outono sem frutos.
Mas, apegados como estamos à aparência de tudo, esquecemos a voz do profundo e ouvimos deliciados o som da superfície. Temos o vício da tristeza.

Miguel Torga Diário (1946)




 

domingo, 31 de julho de 2016

O tempo é a minha matéria

                                          Foto: Google

MÃOS DADAS

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos,
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

Carlos Drummond de Andrade

domingo, 12 de junho de 2016

Aniversário

                                                           Foto: Google

Aniversário
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a.olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa 

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Sermos donos da nossa história

                                          Foto: Google



«Sermos donos da nossa história pode ser duro, mas nunca tão difícil quanto passarmos a nossa vida a fugir dela. Abraçar as nossas vulnerabilidades é arriscado, mas não tão perigoso quanto desistir do amor e da pertença e da alegria – as experiências que nos tornam mais vulneráveis. 

Só quando somos suficientemente corajosos para explorar a nossa escuridão descobrimos o poder infinito da nossa luz.»

( Brené Brown, in A Coragem de Ser Imperfeito )